Terça-feira, 07.11.06

(Raro) Momento de erudição

Kapsberger.
Nascido Johann Hieronymous (porque o pai era um militar austríaco, de nome Wilhelm), mas sempre viveu em Itália, usando muitas vezes uma versão mais "italiana" dos seus nomes próprios: Giovanni Girolamo.
Terá nascido em 1580 e crê-se que morreu por volta de 1651, em Roma.
Era um virtuoso do alaúde e chitarrone ou theorbo (instrumentos "avós" da guitarra - o chitarrone põe-me maluco com aquelas cordas fora do braço do instrumento!!!) e também compositor. Sim, muito provavelmente, este rapaz era o Jimi Hendrix do séc. XVII!!
Foi-me apresentado (como não poderia deixar de ser nestas coisas mais eruditas) pel'O Incontinental aqui há já uns bons anos e fiquei fascinado pela ideia de que ninguém, à altura, o levou muito a sério como compositor, tendo muita gente caracterizado as suas composições de «barulho» e de temas muito simplistas para o que se ia fazendo - o que, neste último caso, até é verdadeiro. As suas composições para voz eram consideradas chatas e atabalhoadas.
E, no entanto...
No entanto, o minimalismo da sua música é uma coisa que compele, de forma estranha. Há coisas que o homem escreveu (composições não vocais, entenda-se) que, se lhe pusessem um Jeff Buckley ou um Eddie Vedder a cantar qualquer coisa por cima, seriam de uma pessoa se pasmar.
Ainda que um compositor barroco, há coisas que vão ouvir de Kapsberger que podem parecer jazz ou pop - por exemplo, a inacreditável Ciaccona, quase uma jam session (!). Noutras, o uso da percussão não é possível de se explicar antes da década de 60 do século XX - ouça-se Canario. Noutras ainda, o minimalismo e experimentalismo são desconcertantes - Colasione.
Quanto a técnicas de alaúde e chitarrone usadas, muitas delas são ainda usadas na guitarra de hoje (hammer-on's, pull-off's, slides, acordes cheios como em qualquer música pop...).
Por isto tudo, gosto de pensar em Kapsberger como um OVNI musical. Acho que se lhe dessem uma guitarra eléctrica, amplificador e parafernália condizente, este gajo "matava" a concorrência!
Fiquem então com Kapsberger, tocado por Rolf Lislevand. Estes temas, cujas partituras datam de 1640, fazem parte do disco "Libro IV D'Intavolatura de Chitarrone", editado pela etiqueta Deutsche Grammophon.

Canario
Ciaccona
Colasione

publicado por Olavo Lüpia às 01:57 | link do post | comentar | feedbacks (3)
Quarta-feira, 04.10.06

(Semi-)Novidades - Clogs

Os Clogs constituem uma banda de jazz instrumental que lançou no início deste ano o disco Lantern.
O disco abre com a faixa de nome Kapsburger. Quando vi o nome pela primeira vez, li, instantaneamente, Kapsberger - que foi um compositor obscuro e incompreendido do Séc. XVII, de raízes germânicas, mas que viveu em Itália, e que eu gosto de comparar a um OVNI que passou pela música, porque completamente fora da sua época (vou falar do homem num dos próximos posts, porque vale mesmo muito a pena), - o que me fez devotar a minha total atenção ao que estava a ouvir. Kapsburger é um tema cuja composição é do senhor supra referido, de nome parecido.
O disco é muito interessante e, como música intemporal que é, parece estar completamente desfazada do que vai sendo editado.
A composição é excelente, arranjos fantásticos e é um disquito que não custa nada a ouvir. O som do disco tem muito do minimalismo da composição do próprio Kapsberger e algumas músicas fazem-me lembrar, por exemplo, as Amina (banda de suporte do Sigur Rós) ou a banda sonora que os (enormes) Zita Swoon fizeram para o filme "Aurora", do Murnau.
O acabado de descrever está bem demonstrado nas lindíssimas 5/4 e Lantern (única música parcialmente cantada do disco).

Kapsburger - Clogs
5/4 - Clogs
Lantern - Clogs
publicado por Olavo Lüpia às 03:12 | link do post | comentar

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