10/10 (dez-em-dez) - I - Bob Dylan (1962)

Aqui está, como já havia anunciado, a minha lista de discos preferidos, com a etiqueta "10/10" (dez-em-dez).
Não negando a importância dada às canções, como pedaços estanques saídos da pena de qualquer compositor, é o seu enquadramento dentro de uma obra específica, um disco ou álbum, que mais me interessa "estudar". Não acredito (ou não quero acreditar) na morte do formato "disco" que se vai apregoando, devido à evolução assustadora da tecnologia e da net e da venda electrónica isolada de músicas.

Posto isto, por onde se deve começar? M. de La Palisse diria «pelo início». E, mais uma vez, teria razão!
Enquanto preparava o post, assaltaram-me algumas dúvidas, a saber.
Começar por Bob Dylan (o compositor), parece mais que lógico e indiscutível, como o mais importante e influente escritor de canções da história da música contemporânea. Toda a gente lá foi "beber". Mas, "Bob Dylan" (o disco, o primeiro do compositor) é composto de 12 canções, sendo que apenas duas saem da pena do homem...
Por outro lado, este disco é, desde logo, ofuscado pela qualidade extraordinária dos que lhe seguiram: "Freewheelin' Bob Dylan", "The Times They Are A-Changin'", "Another Side of Bob Dylan", "Bringing It All Back Home" ou "Blonde on Blonde" - aí, sim, aparece o verdadeiro Dylan compositor.
No entanto, "Bob Dylan" é, para mim, um dos discos mais importantes da história da música contemporânea. «Porquê?» - perguntam, pouco interessados.
Para além de algumas canções tradicionais recuperadas por Dylan, este disco faz a evocação dos primeiros escritores de canções. Eles aparecem todos por ali, directa ou indirectamente: Woody Guthrie, Ledbelly, Blind Lemon Jefferson, Blind Willie Johnson (sim, havia muito ceguinho a cantar, ao que parece), Mississipi Fred McDowel, Booker T. Washington White e muitos outros que me estou a esquecer ou desconheço...
Com este disco, diz-se (ainda que, penso, subconscientemente) «aqui está um documento que faz a súmula da história da escrita de canções até agora. Agora, comecemos do zero».
A base para atingir tal desiderato, tendo em conta a história até então, só podia ser a do mote "a red guitar, three chords and the truth", a que se juntaria, naturalmente, uma harmónica, ou seja, o folk e os blues.
Agora, imaginem o contraste entre aqueles vozeirões dos anos 50 e 60 e a franzina e frágil voz nasalada de Dylan... Muitos (outros) narizes se torceram e as respectivas vozes diziam que o homem não sabia cantar e que aquilo não era voz "que se apresentasse" a ninguém.
Porém, havia sempre uma pequena falha nesta equação: as canções. E as canções e a escrita de Dylan batem todos os "contras" que lhe queiram apontar.
Assim, este disco tem um valor inestimável, mais que intrínseco, extrínseco também.
Concluindo, acho que este é o começo do começo e um verdadeiro marco musical, pelo que fiquem com Talkin' New York, a história da sua chegada e primeiros tempos vividos na cidade e Song To Woody (a declarada homenagem a Guthrie e outros escritores de canções que o influenciaram), estas duas saídas da pena de Dylan. Entre elas, ouçam também as "curtidas" Gospel Plow e Freight Train Blues.

Talkin' New York
Gospel Plow
Freight Train Blues
Song to Woody

publicado por Olavo Lüpia às 00:31 | link do post | comentar