10/10 (dez-em-dez) - "The Queen Is Dead", 1986


10 músicas. Todas, no mínimo, muito boas. A maior parte, geniais. Um verdadeiro tratado da música pop.
Enquanto que a composição musical e arranjos estavam entregues a Johnny Marr, com as complexas e imbricadas paredes de som que saíam da guitarra e das orquestrações sintetizadas, o lirismo vinha de Steven Patrick Morrissey.
No entanto, The Queen is Dead, a primeira música, quase parece desmentir tudo o que acabo de escrever. Estrutura mais rock, assente no riff do baixo de Andy Rourke e no ritmo quase tribal da bateria de Mike Joyce, a base por onde planam as guitarras em desconcerto de Marr e a voz de Morrisey, aqui a lidar com os seus fantasmas, enquanto dispara projécteis violentíssimos contra a realeza e a igreja... Não é, pois, bem a ideia da pop convencional.
Mas tudo muda com Frankly, Mr. Shankly, onde, acima de tudo, é Morrissey quem brilha, com uma letra cheia de pérolas de humor e ironia.
Nada nos prepara para a desolação e desespero que vem a seguir, com a genial I Know It's Over. Musicalmente, tudo está no sítio: bateria, baixo, guitarras e orquestrações e a vocalização sentida. A letra é outra coisa impressionante e - pelo menos, a mim - remete-me para a capa do disco, com a frase-chave: «Oh, Mother, I can feel the soil falling over my head». Os pormenores da narrativa são revelados de uma forma quase escondida ou disfarçada, deixando-nos surpresos e suspensos de um fim que é logo anunciado no início.
O desalento continua com I Never Had No One Ever, onde é, mais explicitamente que nas outras faixas, referido o tema recorrente em muitas cancões deste disco, a solidão.
As coisas ficam bem menos sombrias logo a seguir, com aquela que podia muito bem ter influenciado o filme "Clube dos Poetas Mortos" (1989) ou fazer parte da sua banda sonora. Em Cemetry Gates, Morrissey diz que é preciso tomar a escrita como nossa, fugir do plágio e que Oscar Wilde vence aos pontos Keats e Yates, juntos. É uma música trademark dos Smiths, muito contribuindo a composição e aquelas fabulosas guitarras de Johnny Marr, sempre no sítio certo e respondendo às frases vocais de Morrissey, com frases musicais à altura: sempre perfeitas, rítmica e melodicamente.
A esta seguem-se dois monstros dos quais pouco ou nada se pode acrescentar: os hiatos temporais humorísticos de Bigmouth Strikes Again (com as guitarras, mais uma vez, aquelas guitarras...); e The Boy With The Thorn In His Side, com o "eu" e o "nós".
Depois vem o pseudo-rockabilly de Vicar in a Tutu, talvez a música menos forte do disco, que abre caminho para outro monumento: There Is A Light That Never Goes Out. Mais uma vez, o lirismo de Morrissey atinge os píncaros com um refrão do outro mundo, com a ajuda da orquestração electrónica brilhante de Johnny Marr. Genial.
O disco acaba com uma música que se explica a si própria: Some Girls Are Bigger Than Others, de onde se destaca - nunca é demais - Johnny Marr.
Um disco muito equilibrado, com músicas excelentes, que ouço e re-ouço vezes sem conta, como hoje.

The Queen Is Dead
I Know It's Over
Cemetry Gates


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publicado por Olavo Lüpia às 01:07 | link do post | comentar