Novidades - Katzgraben



[Conheci o Tiago quando ele foi aterrar na mesma casa que eu vivia, em Coimbra, uma casa cuja densidade populacional faria qualquer indiano pensar que vivia no Alentejo e cujo senhorio acreditava que se devia acender a luz no interruptor da mesinha-de-cabeceira e não no de parede porque, num raciocínio lá muito dele - e para ele, sem dúvida, brilhante - no interruptor de parede «a electricidade tinha que 'subir'» ergo «pagava-se mais de luz». Juro.
Disperso-me.
Conheci o Tiago melhor no primeiro dia de aulas, no qual me ficou naturalmente incumbido o papel de "protector" do dito rapaz, tudo resumido e "embrulhadinho" naquele clássico epíteto "praxístico", à moda da Cosa Nostra. O Tiago era um gajo estranho: introspectivo, era aquele tipo de pessoa que, ao primeiro contacto, fazia o Charlie Chaplin parecer ter a proficuidade verbal do ex-Presidente Sampaio.
Para sorte dos meus pecados, tivemos naquele ano dois caloiros que sabiam o que era um compasso de 5/4, vital para poderem entoar, sem falhas, o tema da Missão Impossível. Um deles era o Tiago. Éramos parvos, mas também éramos jovens. Agora só já não sou jovem.
Quando falei um pouco mais com o Tiago, reparei que tinha, entre outros, o "II" dos Led Zeppelin, o "Harvest" do Neil Young e gostava muito do Syd Barrett e dos Pink Floyd («dos anos 60 e 70», vincava!), dos Velvet Underground, etc. Tinha um bandolim, mas não tocava músicas de tunas - abençoado! -, coisa rara na Coimbra de 1996, e tocava guitarra. Tinha uma banda também.
Na faculdade, passámos por irmãos e até pela mesma pessoa - pelo menos, no esgar carburado a a álcool de um certo rapaz que perdi de vista passados 5 minutos, 3 minutos exactos antes de ele próprio se perder de vista dos seus sentidos. Acho que recuperou. Mas, disperso-me.
Com o Tiago aprendi a gostar dos Radiohead, dos quais só conhecia à altura os singles, tomando-os por simples baladeiros - nunca me vou esquecer da primeira vez que ouvi My Iron Lung ou Just. E foi ele que me apresentou ao "O.K. Computer", em primeira mão, o qual gravei numa cassete e o ouvi até a fita se rasgar - o gravador de CD's ainda era ficção científica. Um disco que mudou a minha vida. Nunca me esqueço de entrar no dia seguinte na Faculdade, à qual aparecia de vez em quando para me certificar que a mesma continuava sólida nas suas fundações e, concomitantemente, que a desculpa que dava aos meus pais de que "estava a estudar e a tirar um curso e cenas" tinha chances de ser bem sucedida, e uma amiga me dizer: «estás tão bem disposto hoje, e logo pela manhã...», ao que acho que lhe respondi apenas: «ouvi um disco!». Nunca posso agradecer o suficiente ao Tiago por isso.
Tocámos juntos, numa espécie de proto-banda que, dada a sua escassez de meios, não podia ser reconhecida sequer como de garagem. Tecnicamente talvez tocasse melhor que o Tiago, mas em inspiração e imaginação sentia-me um ogre (o "Tógre"!) ao ver aquela cabeça a funcionar. Tinha um talento inato para os arranjos, para os pormenores, sempre de forma inteligente.
Assisti a concertos da banda dele, os Kafka, que em estranheza, originalidade e inteligência não fariam do checo um cadáver triste. Uma boa banda que, entretanto, acabou.
Eu também acabei. O curso. O Tiago também e a geografia ditou uma separação. Uma e outra vez, quando o soube em Londres.
Há cerca de um ano convenceu-me a pegar no "machado" de novo e a gravar coisas. A compor. Fosse o que fosse. Fazer coisas! Que ele também estava a fazer e que eu não me devia "encostar". Fosse o que fosse!
E chegamos a 2008, ao dia 09 de Abril, e o Tiago, aliás, Esteves, aliás...]

Tiago E., aliás, Katzgraben surge aí com o primeiro trabalho próprio lançado online, "Katzgraben", inserido no Guttapercha, «colectivo artístico com o objectivo de criar uma plataforma experimental entre o trabalho visual e sonoro», como se definem, entre a Barcelos natal e Berlim, com Londres de permeio.
Música que recria ambientes introspectivos, instrumental (com excepção da última faixa), experimental, aqui e ali pós-rock, inteligente e muito aconselhável aos mais audazes, ainda que os afectos me tornem suspeito.

Podem ir a esta página do sítio da Merzbau ouvir e descarregar gratuitamente o disco de Katzgraben, ainda que a editora agradeça qualquer contribuição monetária que se possa fazer à editora.

To Berlin!
Knitting Black Wool II
Out-Of-Date
Katzgraben, "Katzgraben" (2008)
publicado por Olavo Lüpia às 23:56 | link do post | comentar