Novidades - The Arcade Fire

"Neon Bible"

Os Arcade Fire são um bando de miúdos que parecem ter tomado uma qualquer estranha pastilha onde estava condensado tudo o que de bom se fez na música dos últimos 30 e tal anos. Já assim foi com o justamente celebrado "Funeral" (2004): havia Bowie, Pixies, Clash, Talking Heads, U2, Echo & The Bunnymen... havia 70's, 80's, 90's e um cheiro a novo e a autêntico que tornou fácil a toda a gente pura e simplesmente render-se ao disco.
Diga-se que a predisposição para gostar de tudo o que vem destes canadianos é um factor a ter em conta. "Funeral" foi um disco formidável, com uma vaga de fundo que começou pelos internautas alastrando-se depois à crítica especializada, fazendo dos Fire a definitiva banda in e compelindo os sagrados David Bowie, David Byrne e U2 a juntarem-se à onda, com loas de rendição e performances conjuntas ao vivo.
Ainda assim, a banda foi conseguindo manter-se mais ou menos distante do folclore puro, enquanto juntava indefectíveis de artistas de quase todos os quadrantes musicais. E assim chegamos a 2007 e a uma onda de antecipação impressionante.

Havia 3 bandas com primeiros discos excelentes que se iam aventurar no "difícil segundo disco" neste ano: os Bloc Party (depois de "Silent Alarm", de 2005), os Clap Your Hands Say Yeah (depois do disco homónimo, de 2005 ou 2006 - dependendo da geografia terrestre) e os Arcade Fire.
Os primeiros não confirmaram a excelência das suas estreias. Não são maus discos, entenda-se. Mas deixam um certo travo a desilusão e não acrescentam muita coisa aos antecessores.
Faltavam agora os Fire, não por acaso, a maior esperança das três..
E, sim, o disco é mesmo muito bom e apenas não é uma bomba por causa do fenómeno "Funeral"...
Em relação ao anteior, as novidades de "Neon Bible" traduzem-se na inclusão de um feel bastante gospel, como em Intervention, Neon Bible e My Body is a Cage, e a junção de mais algumas referências às que já tinham sido expostas no disco de estreia, com especial referência para Bruce Springsteen, muito notória em Building Downtown (Antichrist Television Blues), mas também em Windowsill ou Ocean Of Noise. Novidade também, a escrita mais comprometida de Win Butler, como em Windowsill (sobre a América e a guerra) ou em Black Mirror. Building Downtown... debruça-se mais sobre a religião e o medo do estado do mundo de quem vive na América.
Os arranjos continuam com um gosto impecável, fazendo de Owen Pallet (Final Fantasy) um dos novos génios do rock actual. Continuamos a ter aqui aqueles twists inesperados em Black Waves/Bad Vibrations ou The Well and the Lighthouse [como conhecíamos já, por exemplo, em Crown of Love ou Wake Up, de "Funeral"] e a Pallet se deve a reformulação de No Cars Go - já presente no EP homónimo de 2003.
O que mais impressiona (e já impressionava em "Funeral") é a intensidade de cada música - escrita e trabalhada de forma meticulosa. Sentimos o seu pulsar como, quando cansados, sentimos o do nosso coração um pouco por todo o corpo.
Um excelente disco dos Arcade Fire que os coloca num patamar único, como a maior confirmação do rock desta década. Se calhar, a evocação e feel gospel que acima referi até serão propositados, de modo a os revestir de uma aura de "salvadores do rock", como muitos media - portugueses também - o pretendem fazer crer.
Apesar da qualidade dos discos dos AF, a conclusão é absolutamente exagerada...


Black Waves/Bad Vibrations
Ocean of Noise
Building Downtown (Antichrist Television Blues)


(para mais músicas deste disco aqui no tasco, clicar no marcador Neon Bible, em baixo)
publicado por Olavo Lüpia às 01:37 | link do post | comentar