10/10 (dez-em-dez)/Especial Bruce Springsteen #6 - "Born To Run"


Para começar, este é um dos melhores de rock de sempre, venha o que vier.
A primeira curiosidade é a de que as canções de "Born To Run" foram compostas por Springsteen ao piano, e não à guitarra. Talvez dito isto se perceba melhor algumas das opções de composições e arranjos do disco.

O disco começa com o que Springsteen chamou um convite, não só à Mary da letra, mas a todos os ouvintes. Um escape, um "vamos embora?", a ideia que tudo estará bem se sair de uma terra pequena e opressiva. Thunder Road transformou-se, por direito próprio, num hino rock intemporal. Um pouco ingénuo, como o é o tema-título, mas genuíno:

Thunder Road

« (...)
There were ghosts in the eyes
Of all those boys you sent away

They haunt this dusty beach road

In the skeleton frames of burned out Chevrolets


They scream your name at night in the street
Your graduation gown lies in rags at their feet

And in the lonely cool before dawn

You hear their engines roaring on

But when you get to the porch
They're gone
on the wind,
so Mary climb in

It's a town full of losers

And I'm pulling out of here to win
»

E quantos Win Butler (Arcade Fire) cabem nestas estrofes?

A seguir vem o soul-funk de Tenth Avenue Freeze-Out. Springsteen estava a ter alguns problemas com a música, até que Steve Van Zandt apareceu no estúdio e fez os excelentes arranjos dos sopros que podemos ouvir. Steven Lento, aliás, Steve Van Zandt, aliás, Little Steven, aliás, Miami Steve, aliás, Silvio Dante ("Sopranos") entraria na E Street Band na digressão de "Born To Run", onde ainda hoje se mantém - saíu em 1985 e voltou com a re-fundação da banda na segunda metade dos 90's. Contribuiu também com vozes secundárias em Thunder Road.

Tenth Avenue Freeze-Out

Backstreets é outro dos emblemas do disco e da carreira de Springsteen. Épico, 'larger than life', lindíssimo. Conta a história da relação 'envergonhada' entre o narrador e a personagem Terry, forçados a esconder o seu amor, até que a relação tem o seu fim e a personagem Terry encontra outro homem, com quem acaba por se ir embora.


Backstreets, Bruce Springsteen & The E Street Band
ao vivo no Hammersmith Odeon, Londres, 1975.



Born To Run

O segundo lado do disco começa com o tema-título, dando depois lugar ao rock com ritmo à John Lee Hooker de She's The One.
A seguir temos a história dos preparativos para um encontro ilícito pela noite, um golpe que pode ser a única esperança para as desesperadas personagens da canção. Springsteen dispensa a E Street Band para ser acompanhado por um trio de músicos jazz (piano, baixo e trompete).

O grande final guarda-nos Jungleland. Ainda mais épica e cinematográfica que o resto do disco, a derradeira música de "Born To Run" é uma das melhores músicas de Springsteen.
A introdução do violino e piano prepara o início da história de amor num contexto de violência de gangs dos subúrbios, a história de Rat e Barefoot Lady.
Um dos momentos mais marcantes da canção é o solo de saxofone de Clarence Clemmons. No documentário "Wings For Wheels" que saiu com a edição especial do 30.º aniversário de "Born To Run", ficamos a saber que o solo é, afinal, da autoria de Bruce Springsteen, que conduz Clemmons do início ao fim do solo, quase nota por nota. Mais um exemplo de que "Born To Run" é mesmo uma poderosa criatura saída da imaginação prodigiosa de um miúdo de 25 anos.

Jungleland

O disco, beneficiando de uma campanha publicitária generosa da 'Columbia Records', acaba por explodir e levar Springsteen à capa da 'Time' e da 'Newsweek'. Era uma espécie de salvador do rock n' roll americano - depois das mortes de Hendrix e Joplin, do fim dos Beatles e dos desaparecimentos de Dylan (curiosamente, também é em 1975 que Dylan volta aos grandes discos, com "Blood On The Tracks") - como mais tarde se refeririam a Kurt Cobain e, mais recentemente, aos Arcade Fire.
publicado por Olavo Lüpia às 17:32 | link do post | comentar