In Rainbows (III)



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No matter what happens now
I won't be afraid

Because i know today has been

The most perfect day i've ever seen
»
in Videotape, Radiohead, "In Rainbows" (2007)

Pois é. "Ele" já por aí anda. Melhor, metade dele, que a segunda parte está guardada para Dezembro, numa edição especial "física", no valor de £ 40 (cerca de € 60) e, já para 2008, numa edição standard, a distribuir pelas lojas.
E o que dizer? Sim, o que dizer de um disco que tem uma fuga mundial para a net (anunciada) a um preço entre os £ 0,45 (tarifa do download) e o que o consumidor quis pagar pelo produto? O que dizer de um disco que foi ouvido por centenas de milhares (ou mesmo, milhões) de pessoas "ao mesmo tempo"? O que dizer de um disco que já muita gente conhecia na sua faceta live e que ansiava pelo registo de estúdio? O que dizer de um disco que, antes de o ser, era revolução?
Para começar - e ainda relativamente a quente -, que "In Rainbows" não tem um Paranoid Android; não tem um Street Spirit (Fade Out).
É razão para desanimar? Claro que não.
Não faltam nunca aqueles 15 ou 30 segundos de música e músicas inteiras que se acoplam ao cerebelo com a força de "Super Cola 3": aqueles riffs das guitarras do Ed O'Brien e do Jonny Greenwood (v.g., Bodysnatchers, 15 Step, Jigsaw Falling Into Place); aqueles contratempos de percussão, electrónicos ou orgânicos saídos da cabeça para a bateria de Phil Selway (por ex., 15 Step, Weird Fishes/Arpeggi) ou o manejo do prato crash (em Reckoner); as linhas de baixo hipnóticas de Colin Greenwood (Nude, House Of Cards, Jigsaw Falling Into Place) ; o piano em estado sonâmbulo e aquelas vocalizações cuja idealização não é nada convencional, mas que, depois de reverberadas pela caixa torácica e saídas da boca de Yorke, se tornam tão naturais como se fosse impossível que ninguém se tivesse já lembrado daquilo (piano e voz juntos, em estado de espanto, em Videotape).
Thom Yorke parece cantar cada vez melhor, como se isso fosse possível. Mas, normalmente, com os vocalistas, é mesmo assim. Pode é questionar-se: se Yorke parece cantar cada vez melhor, como Ed Vedder (já que aqui cheguei, penso que Bodysnatchers será sempre uma música que os Pearl Jam gostariam de ter feito e aquelas vocalizações finais de Yorke reportam-nos, instintivamente, a Vedder), as ideias da banda começam a escassear? Para quem questiona, a resposta é não.
As ideias continuam lá. E boas, felizmente.
Este disco não tem, efectivamente, um Paranoid Android ou um Exit Music, mas tem (para já!) um corpo homogéneo de 10 canções - e descubram lá uma que seja menos que "muito boa" - ora em estado quase líquido (15 Step, Weird Fishes/Arpeggi, All I Need ou Faust Arp - uma coisa fabulosa, esta última) ora etéreo (Nude, Reckoner ou House Of Cards), sendo Bodysnatchers uma espécie de ligação a solo firme. E digam lá se, por exemplo, Jigsaw Falling Into Place não tem matéria para se tornar um instant classic dos moços de Oxford?

O som de 2007 é este dos Radiohead, é também o dos Beirut de "The Flying Club Cup", é, porque não?, o daquela espécie de Buckley-circa-"Live at Sin-È"-trans-génica (cruzes, credo!), Annie Clark (ou St. Vincent) de "Marry Me", sem desprimor para mais alguns nomes. Não é aquela repescagem e re-colagem dos 80's, por muito que os 80's tenham tido coisas muito boas.
Análises mais aprofundadas e frias ficam para o pós-57.ª audição...
(As músicas que aqui ficam em baixo foram, praticamente, escolhidas aleatoriamente)


Bodysnatchers


Faust Arp


Jigsaw Falling Into Place

publicado por Olavo Lüpia às 12:56 | link do post | comentar