10/10 (dez-em-dez) - "Nebraska", 1982


Um pequeno tesouro. Uma espécie de low-fi acidental antes do "lo-fi". A verdade é que "Nebraska", subsequente ao duplo "The River" (1980) e precedente ao brutal estrelato de "Born In The U.S.A" (1984) não esteve para si este disco.
Springsteen gravou as canções num gravador de 4 pistas com o intuito de as registar para depois as gravar com a E-Street Band. E chegou a fazê-lo, mas teve de convir com o manager Jon Landau que o folk sombrio e misterioso das maquetes servia muito melhor o propósito das músicas. Especulando, andará, então, por aí um "Nebraska" eléctrico...
[Espero que não: que todas as masters tenham sido destruídas.]
Assim ficamos com a guitarra acústica, a voz e a harmónica de Springsteen... e pouco mais que isso (a guitarra torna-se eléctrica em Open All Night, uma espécie de 'off-topic' do disco).


Atlantic City

O que "Nebraska" tem para nos oferecer é um conjunto de contos pequenos, a serem ouvidos como se se visse um filme de pequenas histórias entrelaçadas, ao estilo de um "Magnolia" (1999). Pequenos contos sobre assassinos, como a assombrosa faixa-título que abre o disco - da qual falaremos noutra altura -, as relações de um mero 'peão' com a Máfia, no relato detalhado de Atlantic City, e uns mais humanos 'small-time crooks', em Johnny 99 ou State Trooper, para além do outro lado: o conflito de um agente da lei quando se vê perante o dilema de cumpri-la ou deixar o próprio irmão fugir (em Highway Patrolman). E como estas histórias se entrelaçam: o Frankie Roberts de Highway Patrolman podia muito bem ser a personagem da história seguinte, State Trooper, na sua desesperada e solitária fuga de carro nocturna. A cinematografia destes pequenos contos não podia estar mais exposta que neste pequeno facto: Highway Patrolman deu origem ao filme "Indian Runner" (1991, "União de Sangue", na versão portuguesa), com argumento e a estreia na realização de Sean Penn.


Highway Patrolman

State Trooper

No meio do "filme" aparece também a personagem Bruce Springsteen a exercitar (Mansion On The Hill) ou a exorcizar memórias de infância (My Father's House) - e um pouco das duas em Used Cars. Mansion On The Hill é uma referência verídica a uma grande casa numa colina nos arredores de Asbury, NJ, que fascinava a imaginação dos pequenos Bruce e Pamela Springsteen (a irmã mais nova), mas também a do jovem Danny deVito!...


Mansion On The Hill

No final, como em qualquer filme e como em qualquer história, vem a sua sustentação moral, neste caso uma esperança misteriosa - divina? - que dá às pessoas uma razão para acreditar.


Reason To Believe
publicado por Olavo Lüpia às 07:00 | link do post | comentar