Assustadoramente belo


Em 1971, quando trabalhava com Alan Powers num documentário sobre pessoas que viviam duramente em certos bairros de Londres, Gavin Bryars apanhou alguns desses sem-abrigo a começar a irromper em cantos bêbados. Um deles, no entanto, não bebia álcool e repetia uma pequena frase musical de teor religioso.
Bryars gravou aquele lamento e, chegado a casa, verificou que o canto estava afinado e que podia acompanha-lo ao piano, o que fez. Reparou que os primeiros 13 compassos, quando tocados em loop, formavam um corpo musical interessante em cima do qual poderia compor um arranjo orquestral. Decidiu levar a gravação para o Departamento de Belas Artes de Leicester para o copiar para uma mesma bobina. Deixou a cópia a fazer e as portas abertas quando saiu para tomar um café. Quando voltou encontrou a habitualmente fervilhante sala em estado de comoção, com alguns dos presentes a chorar silenciosamente.
A morte tirou ao velho cantor a oportunidade de ouvir o que Bryars fez com a voz dele.
A peça foi tocada pela primeira vez ao vivo em 1972 e gravada por Bryars em 1975. Em 1993, Bryars regravou-a, convidando Tom Waits para acompanhar a voz do velho.

Jesus' Blood Never Failed Me Yet (arranjo para cordas)
Jesus' Blood Never Failed Me Yet (arranjo para orquestra completa)
Gavin Bryars (com Tom Waits), "Jesus' Blood Never Failed Me Yet" (1993)

(fonte)

publicado por Olavo Lüpia às 03:51 | link do post | comentar