Tom Waits at Ratcellar (Phoenix Park) #3 - «Hail, Hail, the Eyeball Kid!»

As luzes apagam-se e o feitiço começa logo a seguir à ovação em pé.
«Ahh-poom!», vocifera o homem da voz metálica, quantas vezes ferrugenta, e começa o mais que eficaz medley Lucinda/Ain't Going Down The Well, que abriu as hostes em todos os concertos da digressão 'Glitter & Doom'. A partir daí, estão uns milhares de pessoas enfeitiçadas durante cerca de duas horas e meia, membros da banda incluídos. Suspensos de cada movimento: da mão, do pé, do torso. Por esta altura, Waits está no meio de um pequeno estrado circular poeirento, com pequenos instrumentos de percussão no chão, que vibram de cada vez que deixa cair o pé com violência, controlando tudo o que vive à sua volta.


Lucinda/Ain't Going Down The Well
(31.07.2008)

Uma dezena de músicas depois, Waits senta-se em frente ao piano e inicia cada uma das músicas com uma pequena história. Fala da sua ideia para comida canina fluorescente, para que se tenha uma tarefa mais fácil na recolha dos seus dejectos; de como deve ser afastado dos leilões do e-bay, porque acabou de comprar «the last dying breath of Henry Ford»: «think of it: how many more of them are there?!»; antes de uma devastadora Invitation To The Blues, na segunda noite, discorre sobre como a Irlanda está mudada: viu uma placa a dizer "Men Working"... e, para sua sua surpresa, «there were actually men working»; na primeira noite diz que vai tocar um pedido: «my own request!» e lança-se a uma arrebatadora Tom Traubert's Blues que deixa o público em pé durante um ou dois minutos, com as palmas das mãos doridas...
O set de piano acaba sempre com o convite ao canto do refrão de Innocent When You Dream.


Tom Traubert's Blues
(01.08.2008)

As músicas apresentam-se com novos arranjos, nos quais brilham todos os músicos, principalmente o guitarrista Omar Torrez e Vincent Henry, na harmónica, clarinete e numa variedade de saxofones. Os arranjos fazem ainda sobressair o melhor do ainda muito jovem baterista Casey Waits, filho de Tom. Arranjos esses que são excelentes, por exemplo, em Dirt In The Ground, agora quase hipnótica, God's Away On Business ou Cemetery Polka. Note-se ainda a presença do ainda muito novo filho de Waits, Sullivan (13 ou 14 anos), no clarinete e sax em algumas músicas, e congas em Hoist That Rag - a música das "guitarras cubistas" (pela mão de Marc Ribot) apresenta-se cada vez mais latina.

Hoist That Rag, "Real Gone" (2004)

Poucas são as músicas que se repetiram em todas as três noites de Dublin: o medley inicial, Down In The Hole, Innocent When You Dream, Hoist That Rag, Lie To Me e Make it Rain, que me lembre. As primeiras duas noites apresentaram-se como se fossem espectáculos complementares, de tão poucas músicas coincidentes. A terceira noite foi um apanhado das noites anteriores (comparar as setlists, no post abaixo), com a oferta de duas pérolas: Blue Valentines e The Heart Of Saturday Night.

The Heart of Saturday Night, "The Heart of Saturday Night" (1974)

Um dos momentos altos da primeira e terceira noite foi Eyeball Kid, com as luzes a apagarem-se, excepto alguns focos brancos, quando Tom pega num chapéu todo espelhado. O resultado é visualmente eficaz: um caleidoscópio de pequenos focos saídos de cada um dos espelhos do chapéu, como se fosse uma bola de discoteca.
Make It Rain marcou o fim dos concertos, com a suplica de Waits a ser correspondida com uma chuva de confettis de cor azul e amarela. Na primeira noite, a súplica da lenda correu tão bem que, logo a seguir, o próprio céu de Dublin baptizou aquela tenda com uma feroz golfada de água que não mais deixou de castigar a cidade do Leefy naquela noite.


Make It Rain
(31.07.2008)

Em resumo, três noites absolutamente brutais. Tom Waits está dentro daquele pequeno número de pessoas que garantem sempre um espectáculo excelente. Na sua obra podemos encontrar todo o século XX, entre o jazz, o blues, a folk, a soul, a world music (rumbas, polkas, valsas...) e o mais que possamos imaginar.
Serve apenas de consolo a forma como acabou o segundo encore do último dia:
«So don't cry for me
For I'm going away
And I'll be back some lucky day
».

Pony, "Mule Variations" (1999)
If I Have To Go, "Orphans(...): Bawlers" (2006)
Lucky Day, "The Black Rider" (1993)
publicado por Olavo Lüpia às 14:51 | link do post | comentar