Admirável Mundo Novo ou de como eu vi A LUZ numa viagem de autocarro

Aqui há uns dias, fiz uma viagem de autocarro e fui abençoado ao presenciar uma conversa de três mulheres de etnia cigana. Não pensem já mal de mim. Primeiro, fiquei muito próximo delas, depois, ela falavam um bocado alto. Correcção, MESMO MUITO ALTO. Entendam isto: eu não pude deixar de ouvir...
Ora, a conversa foi completamente controlada por uma deleas (a Sr.ª A), a metralhadora humana - não só pela qualidade dos "projécteis" que lhe saíam dos lábios, mas também pela quantidade e frequência dos "disparos" -, que tinha como primeira interlocutora a companheira de banco (a Sr.ª B), uma mestre na propalação de banalidades. No banco imediatamente atrás, um terceiro ser (a Sr.ª C) trazia o tom surreal, o "maravilhoso pagão", à cavaqueira.
Passo a transcrever as passagens mais inesquecíveis de uma conversa de que durou, neste registo, cerca de hora e meia.

A - Já viste que ela pôs os dentes?
B - Ela bem se ria muito para mim, mas eu não sabia porquê!
A- Foi em Lisboa que ela os pôs.
B - Não, não. Foi “lá fora”.
Admiro o conceito de "lá fora". Espanta-me que não tenha sido ainda correctamente definido num qualquer dicionário.

A - Ai a minha mãe... Nunca pensei que ela morresse.
B - E o que é que ela tinha?
A - Fazia hemodiálise.
A conversa aqui sobe um nível. Já não se responde à pergunta directamente e sempre se obriga o interlocutor a pensar. De qualquer forma, fazer hemodiálise sempre é mais concreto e eficaz que "fazer gelo". Como é que o acto de se pôr água em estado líquido numas pequenas formas e metê-la no congelador pode curar alguém?

A - O marido foi morto, ela levou aquele “sopapo”, “esvariou” da cabeça. Foi pró Hospital, para Santa Maria. A mãe deu-lhe um papel para assinar para tomar conta da menina. E pronto, deu-a. “Aquilo” foi dado.
Uma nova concepção do Direito da Família. À avó pode ser ofertado um neto através de mera forma escrita. A irreversibilidade do acto de doar o infante é de se notar. Outro efeito da doação de criança a avô é a coisificação do petiz, que começa a ser tratado carinhosamente por "aquilo".

A - Ele foi um santo para mim.. O problema dele era de ser drógádo. Era só esse.
C – Pois, aquilo foi uma "úrsula" que "arrebentou".
B - E ele morreu?
C - Arrebentou para dentro, morreu! Se arrebentasse para fora, vivia, arrebentou pa dentro, e foi-le o sangue todo para dentro.
A – Eu é que gostava dele. Ia ter com ele ao Casal Ventoso. E como o via a sofrer tanto, eu ia vender e ele ficava em casa.
Aqui temos a primeira intervenção digna de nota da sr.ª C. E, logo a abrir, revela conhecimentos complexos não só da medicina, mas também do léxico e gramática portuguesa. Impossível de não dar o enfoque ao amor incondicional da Sr.ª pelo seu marido, que só tinha mesmo um problema... Ninguém é perfeito, certo?

A - E a Lêla? Ela ficou viúva há uns três anos ou 4. Ele não se metia na droga nem era bêbado. O filho dela é que é drógado. A irmã dela é que era muito minha amiga, mas aqui há uns anos, começou a ter umas conversas estranhas... E disse-me: «tu e a minha irmã Lela têm um "cérebo" muito fraco» e eu disse: «tu é que tens muito avançado».
B - E ela "prestitui-se"?
A - Sim, vai levar os filhos à mãe.
Mais uma vez o raciocínio é complicadíssimo. Responde-se a uma questão com a oração com que se responderia a uma pergunta subsequente. A única coisa que sei é que a família e amigos destas pessoas têm alguns problemas com o consumo de estupefacientes. Em frente.

A - Oh... essa? Quando o marido estava (em casa), estava sempre doente. Quando ele estava em viagem, empiriquitava-se toda (...) E via muitos filmes pornográficos... Dizia que era para “fazer umas gracinhas” ao marido.
B - Era, era...
A - Uma vez, o cunhado, o Manuel, foi lá dar-lhe uma sova, por causa da lingerie.
C - Abençoado!
A mera suspeição da traição é, como se convencionou normal numa vida em sociedade, completamente rejeitada pela família. Quem quer que se "chegue à frente" para aplicar o devido correctivo considera-se como que embuído do espírito do Divino.

A - Ela é muito jeitosa. No outro dia, vestiu uma camisola “à’riscas” preto e dourado. Mas daquele dourado amarelo...
Nesta situação... hum... Hum... Siga para a próxima!

A - O marido é drógado.
B – Sempre foi.
A - É que sofreu, essa menina.
Outra vez o tráfico de estupefaciente e o consequente drama social.

A - “Pediu a menina” três vezes e três vezes "levou cabaças"...
B - Se elas não caem por um rico, iam cair pelo Cácá...
Esta, confesso que não percebi, mas será, provavelmente, qualquer costume, como na Páscoa cristã, em que o afilhado entrega os ovos ao padrinho e este retribui com o folar. De resto, adoro o nome Cácá.

A - Eu não sabia o que era "isso" e uma vez vi um num carreiro de água e enchi-o, mas não foi com a boca e alguém me disse: «Olha, isso é uma "coisa"». Só soube o que era há pouco tempo, uma vez que fui a uma consulta de ginecologista e ela me deu uns...
As noções mais básicas de informação, de higiene e de planeamento familiar são aqui postas em crise. Pungente.

A - Ela não está bem da cabeça. Achas bem que ela tenha posto o nome da filha que já morreu à loja dela?
B - Mas como se chama a loja?
A - "Sonhos de Patrícia".
B - Ai, não acho nada bem.
A - No dia em que a menina fazia 3 anos, levou um bolo à campa e cantaram ali os Parabéns.
C - E quem é que comeu o bolo?
A melhor intervenção da tarde/noite da sr. C! De facto, as perguntas são para se fazer. Numa história tão desequilibrada como esta, bem mais importante que qualquer outra questão é esta: mas quem raio vai fazer um bolo que ninguém vai comer? É essa a grande vantagem de se fazerem bolos para as pessoas que ainda estão vivas!
Nota mental: questionar criticamente o conceito supra exposto quando o aniversariante for diabético, estiver a fazer dietas rigorosas ou, simplesmente, não for muito "à bola" com coisas doces.

Finalizando, uma lição. Depois de hora e meia em que "rasgaram" toda a gente, como se pôde ler acima:
A - Olha, ninguém fala de ninguém.
B - É verdade. Eu também acho.
A - Eu não falo mal de ninguém. Às vezes, quando vou a dizer mal de alguém... até me calo!
João Pedro Pais, se me estás a ouvir, terás de pedir os direitos de autor a esta senhora, se quiseres usar o «ninguém fala de ninguém» num dos teus próximos "poemas" musicados, ok?

Uma banda sonora que possa resumir isto tudo... É difícil, mas posso tentar:

Common People - William Shatner (Has Been, 2004)
Drógádo - Irmãos Catita (Mundo Catita, 2001)
Kalasnjikov - Goran Bregovic ("Underground", Banda Sonora Original, 1995)

publicado por Olavo Lüpia às 05:15 | link do post | comentar